Arte indígena
Área indígena: guaranis, huni kuin e a invasão colonial
Trineto de guarani (Adalva, triavó materna), Xadalu não se reivindicou como guarani, alegando não falar a língua, fator básico da identidade cultural. Xadalu se tem por “mestiço”, pois sua mãe Maria Catarina Martins da Luz é negra. Diz ele: “minha avó Dalva [Dalva Oliveira da Luz] é um fragmento indígena.” O pajé Karai Timóteo da aldeia Yjere cobrou-lhe aprender o guarani; já falando a língua, o pajé Karai Tataendy Ocã, da aldeia Aldeia Guyra’i Tapu, em Paraty, deu-lhe um nome guarani – Xadalu Tupã Jekupé ou Xadalu, o enviado de Tupã. Alguns comerciantes de Porto Alegre rechaçam a presença dos guaranis nos espaços públicos de Porto Alegre, porque “os índios estragam o ambiente”. Em 2005, Xadalu lançou o projeto Área indígena, colando cartazes com tais dizeres em vários lugares da capital gaúcha. Os guaranis se regozijaram entendendo que era seu espaço de trabalho; os comerciantes sentiram-se ameaçados. “No dia em que não houver lugar para o índio no mundo, não haverá para ninguém,” diz Ailton Krenak.
Seres invisíveis são retratos de guaranis que portam uma escultura do animal com que são identificados. Porque os trabalhadores indígenas passam despercebidos nas ruas de Porto Alegre, esses retratos (negatoscópio em chapa de raio X) denunciam seu apagamento social. Xadalu não extrai a mais valia simbólica dos representados em sua obra. Ele incorpora a colaboração autoral ou provê algum retorno material. Xadalu substituiu a alienação por assumir o outro como sujeito moral e econômico, individual ou coletivo. Diagramas de alteridade, que no caso de Xadalu incluem cursos profissionalizantes nas aldeias Tekoa Koenju, Tekoa Pindó Mirim e Tamanduá, construção de banheiros de água quente na aldeia Pindo Poty; reflorestamento em Pindo Poty, com a madeira Kurupy para o artesanato e distribuição de cestas básicas. Xadalu agencia sua potência na escala individual – não se move por impotência; reconhece a pequena medida de suas possibilidades, sem submergir à onipotência. 55
Em 2019, uma milícia a serviço da especulação imobiliária começou um crescente processo de ameaças com armas de fogo, intimidação, assédio moral, xingamentos contra a aldeia guarani de Yjere Ponto do Arado no extremo sul do bairro Belém Novo, em Porto Alegre. A aldeia foi isolada por arames farpados de modo a que seu único acesso fosse por barco, e seu poço artesiano foi inutilizado com óleo jogado sobre a água. A pressão aumentou quando um grupo desses milicianos invadiu a aldeia com armas pesadas ameaçando matar o cacique
Karai Timóteo se ele não retirasse seu povo da região. Com muita bravura, o cacique pediu que todos – crianças, mulheres e homens – se reunissem junto a ele e então ordenou aos invasores, em tom desafiador: “Agora atirem!”. A milícia se retirou humilhada pelo heroísmo dos guaranis. O cacique Karai Timóteo propôs a seu povo formar um escudo humano colocando a população ao redor contra a aldeia em audiência pública com o apoio do atual prefeito, que é de extrema direita.
Paulo Herkenhoff, catálogo da exposição no MARGS, 2022
24 obras
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Arjan MartinsPólis, 2010Técnica mista sobre compensado · 120 X 165 X cmSem imagemCláudia AndujarVertical 19 (Série Marcados), 1983-2018Impressão com tinta pigmentada mineral sobre papel Hahnmemuhle Photo Rag Baryta 315gr · 102 X 272 X 4 cmSem imagemHenrique OliveiraExpl 9, 2016Óleo, papelão, arame e cola sobre tela · 78 X 51 X 27 cm
Ibã Huni Kuin & Kássia Borges (Mahku - Mov. dos Artistas Huni Kuin)Yube Nawa Aibu, 2024Ilustração em papel cartão, caneta hidrográfica · 15 x 20 cm
Pajé Dua BusenEscola Viva, 2020Tinta acrílica sobre tecido · 70 X 210 cmSem imagemXadaluPapa I (Série Seres Invisíveis), 2016Impressão em chapa de radiografia sobre caixa de luz · 43 X 30 X 8 cm
XadaluTenondé (Série Seres Invisíveis), 2016Impressão em chapa de radiografia sobre caixa de luz · 43 X 30 X 8 cm
XadaluXariã (Série Seres Invisíveis), 2016Impressão em chapa de radiografia sobre caixa de luz · 43 X 30 X 8 cm
XadaluJaci (Série Seres Invisíveis), 2016Impressão em chapa de radiografia sobre caixa de luz · 43 X 30 X 8 cmSem imagemXadaluVhera (Série Seres Invisíveis), 2016Impressão em chapa de radiografia sobre caixa de luz · 43 X 30 X 8 cm
XadaluDona (Série Seres Invisíveis), 2016Impressão em chapa de radiografia sobre caixa de luz · 43 X 30 X 8 cm
XadaluNhemongaray (Série Cosmovisão), 2019Gravura em metal · 81,5 X 108 cmSem imagemXadaluYvi`i (Série Cosmovisão), 2019Gravura em metal · 38 X 51,5 cmSem imagemXadaluOpy`i (Série Cosmovisão), 2019Gravura em metal · 56 X 54 cm
XadaluInvasão Colonial Meu Corpo Nosso Território #1, 2019Impressão sobre papel e colagem sobre madeira · 165 X 71 cm
XadaluInvasão Colonial Meu Corpo Nosso Território #2, 2019Impressão sobre papel e colagem sobre madeira · 165 X 71 cm
XadaluInvasão Colonial Meu Corpo Nosso Território #3, 2019Impressão sobre papel e colagem sobre madeira · 165 X 71 cm
XadaluInvasão Colonial Meu Corpo Nosso Território #4, 2019Impressão sobre papel e colagem sobre madeira · 165 X 53 cm
XadaluInvasão Colonial Meu Corpo Nosso Território #5, 2019Impressão sobre papel e colagem sobre madeira · 165 X 40 cm
XadaluInvasão Colonial Meu Corpo Nosso Território #6, 2019Impressão sobre papel e colagem sobre madeira · 165 X 71 cm
XadaluInvasão Colonial Meu Corpo Nosso Território #7, 2019Impressão sobre papel e colagem sobre madeira · 165 X 49 cm
XadaluTesouro do Céu, 2021Pintura sobre papel, costura e colagem de tecido · 194 X 180 cm
XadaluSeres InvisíveisEsculturas indígenas talhadas em madeira · Onça - 10 x 28 x 10 cm / Tatu - 13 x 36 x 8cm / Jacaré - 6 x 32 x 12cm / Coruja - 31 x 11 x 7 cm / Gavião - 24 x 9 x 7 cm
XadaluNheru "Existe Uma Cidade Sobre Nós", 2021Agua tinta e agua forte com aplicação de nanquim amarelo · 78 x 53, 5 cmHistórias
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