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Coleção Sartori
Núcleo 09 de 12

Encyclopaedia Privata

Camille Kachani, o apátrida e a mosca varejeira

Qual é seu roteiro de diáspora? Com a independência de Israel (1948), meus pais, como muitos judeus sírios, fogem para o Líbano. Nós, uma família sefardita da tribo de Israel, morávamos no setor cristão de Beirute. Israel vivia uma situação difícil pelas guerras com os vizinhos. Para meu pai, não era uma opção viável para viver. Em 1973, viemos para o Brasil. Vivi num kibutz em Israel (1983-4), mas retornei por incompatibilidade com o modo de vida dos israelenses. O governo não era mais socialista e eu já não gostava da convivência social.

Por que A condição humana? Li Malraux aos 15 anos. A figura de Chen me marcou, mesmo com dúvidas sobre sua atuação (a ética pessoal) mas que segue seu papel, guiado por sua ideologia.

A Encyclopaedia Privata é trilíngue. Por que Camus? A Peste me mostrou que não só garotos opacos não conseguiam mudar o fluxo de suas vidas nem seu meio; mesmo um homem que parecia uma fortaleza (o doutor Rieux) não tinha opção, mesmo com seus conhecimentos, senão acompanhar o correr dos fatos. O pouco que ele podia fazer não mudava o estado das coisas, mas era um imperativo, era o sentido que podia dar a sua vida. Entendi que isso valeria para minha vida, por mais insignificante que fosse.

Quais são os Salmos citados? Os Salmos são repetitivos. A lembrança deles nas aulas é de uma litania num tom que nunca mudava, horas a fio. Também transcrevo poemas de Omar Khayyan lidos em árabe na escola.

Como granadas, moscas, cálices e xícaras fazem a Encyclopaedia Privata? Porque são os elementos que me definem. As moscas me acompanharam pela infância e adolescência, do Líbano ao Brasil. Eu tinha uma caixinha de papelão onde guardava moscas 123

mortas. Os cálices são como a pele negra ou os olhos orientais: mesmo que sem traços físicos reveladores, me era impossível esconder a minha condição judaica. As pessoas sempre parecem “adivinhar”, sempre fui o judeuzinho, le juif na escola francesa. As xícaras são o fardo da família. As granadas são uma arma da qual tenho medo, mesmo ao carregar uma, ela pode explodir em sua cintura.

Seu imaginário trabalhava a violência da guerra, a iminência de morrer, a precariedade da vida? Comecei a desenhar na escola aos 5 anos. Alunos e professora me olhavam. Essa era uma forma de existir, de construir um universo no qual as coisas aconteciam com calma. Você tem memórias da violência da guerra e das granadas? Quando saímos do Líbano em 1972, a violência latente da guerra civil já atravessava a vida. Eu não podia falar com ninguém, pois o sotaque judaico poderia causar problemas. Um político foi assassinado na guerra entre maronitas e muçulmanos. Meu pai pendurou um barbante preto na antena do carro, para despistar. A maioria dos carros portava esse sinal de luto. Meu pai não quis arriscar a ser indagado porque não estava de luto. As granadas vêm da cena de milicianos palestinos, cujo QG era no 4° andar do prédio onde morava um amigo. Diariamente, eu passava por eles. Qual é o sentido das xícaras de café? Era um costume diário as mulheres da família se visitarem pra tomar café (por isso, as xícaras) e conversar. Uma de delas ficou até 75 em Beirute e as poucas que ainda vinham tomar café se sentavam na 124

As moscas aludem a que? As moscas são que há de mais precário na vida. Nascer no Líbano de pais estrangeiros não dava o direito a documentos nem à cidadania. Me lembro de moscas na mesa da cozinha no Líbano e na cozinha ao chegar ao Brasil. Qual era o sentimento de ser apátrida? Consegui o RG de estrangeiro no Brasil e, logo depois, a naturalização e a cidadania. Mas meu nome, a forma de ver o mundo, a família, a religião, nunca permitiram que eu tivesse a ilusão de ter me tornado um brasileiro. Hoje não sou apátrida, mas não sou libanês, nem brasileiro, nem francês, nem nada. Hoje tenho a sensação de alívio por não dever nada a ninguém. Você desenha cálices de Kiddush? Estes cálices são herança familiar. Na casa de minha mãe ainda há uns dois. Não sigo nenhum ritual nem tenho qualquer fé. Minha formação em filosofia no Colégio Francês em São Paulo foi o terceiro pilar de uma identidade dividida e infiel. Tudo que aprendi era ligado à cultura francesa, mas eu era judeu e árabe aos olhos dos professores. Nada foi fundante em minha identidade, a religião e a família judaica, que falava árabe e francês em casa, só comia comida árabe (até hoje como pão sírio em minha casa), toda a cultura francesa que aprendi. Cultivo esse não-pertencimento como oportunidade de usufruir de diferentes facetas de todas as culturas, pois não pertencendo a nenhuma, pertenço a todas também. 125

Paulo Herkenhoff, catálogo da exposição no MARGS, 2022