Episódios do Vice-Reino à Independência
A história do Brasil passa pelo Rio Grande do Sul
Episódios do Vice-Reino à Independência As obras alegóricas da história do Brasil de Glauco Rodrigues serviram de base para a montagem deste conjunto de episódios do Vice-Reino à República. Com um conjunto de estações, a Coleção Sartori atravessa fatos, feitos e processos relevantes da sociedade brasileira até a ditadura militar de 1964 sob a ótica crítica dos artistas. Episódio 1 (século XVIII). A cartografação do Brasil com o Mapa (da série Assim é... se lhe parece), de Nelson Leirner, aqui se inclui para pensar as negociações diplomáticas sobre os limites das colônias de Portugal e Espanha. Na zombaria de Leirner, o Brasil perde sua autonomia cultural com a invasão de centenas de 144
decalques de figuras de quadrinhos que ele cola para preencher o território brasileiro. Episódio 2 (1720–1956). A narrativa histórica se acelera nas litografias de Glauco Rodrigues que alegorizam etapas da vida do Rio de Janeiro na condição de capital do Vice-Reino [Vista da Lagoa do Boqueirão e Arcos da Carioca (1750)], do Reino Unido [Período Joanino], do Império [Primeiro Reinado e Segundo Reinado] e da República [A República Velha e A Revolução de 30] e outras. Episódio 3 (1822). A grande peleja, de Paul Setúbal, questiona o heroísmo da independência do Brasil,
através do imponente capacete dos Dragões da Independência. Há duas mistificações que nodoam o 7 de setembro. A frase “Tome a coroa, antes que algum aventureiro lance mão dela”, de Dom João VI para aconselhar seu filho o príncipe Dom Pedro, dissolve todo heroísmo porque foi uma concessão benevolente de pai para filho para manter o poder em família. “Independência ou morte” é um grito falso de um homem montado numa mula. Ademais, no dia 5 de setembro, o Conselho de Estado, com a presença da princesa regente Dona Leopoldina e de José Bonifácio, havia decidido pela independência, apenas reservando a Dom Pedro, ausente, a oficialização pública.
Com uma ativa vida política dos gaúchos, para o bem ou para o mal, a história do Brasil passa pelo Rio Grande do Sul. Nos períodos ditatoriais, quatro ditadores eram gaúchos: Getúlio Vargas e, no regime de exceção de 1964, Artur da Costa e Silva, Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, representados por Rafael Pagatini em Retrato oficial. A Coleção Sartori nos traz três trabalhos de Carlos Scliar (Revolução Farroupilha, Imigração e Tenentismo – Coluna Prestes) que tratam de processos históricos positivos da vida do Rio Grande do Sul. Com respeito à imigração, 27% dos gaúchos são descendentes de italianos, que se concentram sobretudo na Região da Serra, como na
cidade de Antônio Prado, onde reside a família Sartori. Leonardo Finotti, considerado um dos mais expressivos fotógrafos de arquitetura do mundo, possui obras no MoMA como obra de arte e não como mero registro documental. Finotti interpretou o Monumento à Coluna Prestes, projetado por Oscar Niemeyer em Santo Ângelo. Por fim, Berna Reale, artista belenense, nos apresenta seu mais conhecido trabalho: Palomo, no qual está montada num cavalo com este nome, atuando impassivelmente como um soldado da Polícia Militar. Diz-se que o cavalo crioulo Palomo participou da operação policial que matou 21 sem-terra em Eldorado dos Carajás, em 1996. 155
O desenvolvimento das navegações pela Escola de Sagres propiciou a Portugal enorme conhecimento naval, como as caravelas. Depois que os europeus chegaram ao atual território das Américas, houve um salto no conhecimento da cartografia, e paulatinamente iniciou-se o processo da conquista, que foi pautado na violência contra os habitantes originários. A colonização foi uma guerra antropológica que resultou na perda dos laços de ancestralidade, da língua e de outros fatores que constituíam a identidade de cada sociedade indígena. O Rio Grande do Sul é privilegiado por contar com uma população indígena que enriquece sua diversidade cultural, como os guaranis mbya e os charruas. No entanto, novos problemas surgiram para afligir essa população, como a especulação imobiliária, a penúria, a diminuição do apoio de órgãos federais, a educação inadequada e o apagamento de sua presença nas cidades. O artista Camille Kachani, um dos melhor representados na Coleção Sartori, apresenta um trabalho em que se apropria da pintura Mulher africana (1641), de Eckhout, que esteve em Pernambuco com Maurício de Nassau. Ao lado da mulher escravizada e do meio das plantas registradas pelo holandês, Kachani faz brotar a vegetação que aparece em muitas de suas obras, surgindo de livros e móveis, por exemplo. Nas últimas décadas, a história deixa de ser vista pela arte como heroísmo para ser apresentada como violência política criminosa, como se observa na pintura Resistência (2018), de Camila Soato. Sua produção atualiza os fatos históricos do século XVI, conotados aos emblemas das multinacionais ostentadas nas velas dos navios, indicando a dependência econômica do Brasil. Soato também mescla com os processos políticos recentes do Brasil, como as manifestações de rua com os grupos de black blocs e suas balaclavas na cabeça em pleno protesto nas ruas.
Lição democrática de coisas No centro da sala, estão objetos singelos que indagam sobre os grandes desafios, o luto e os fracassos do Brasil. A pequena caravela enfrentando as grandes ondas do Sermão aos peixes (baseado na pregação de São Francisco de Assis), de Tonico Lemos Auad, dá a medida poética das dificuldades de cruzar o grande oceano nas navegações que trouxeram os europeus às Américas. Alegoricamente, a incômoda Cadeira da justiça, de Zorávia Bettiol, representa um dos Três Poderes da República, como o Retrato oficial, de Rafael Pagatini, nos tristes percalços da concretização da democracia no Brasil. Também de Pagatini, Grito surdo traz ícones da censura do estado de exceção imposto ao país pelo presidente Emílio Garrastazu Médici através do Ato Institucional n. 5, de 1968. A forma sólida dos alto falantes em cimento exibe a impossibilidade da fonologia e a tentativa de emudecimento pela censura das vozes dissidentes. Um jorro de marrom-lama em Rio Doce, de Luiz Zerbini, traz um peixe agonizante com a morte da vida animal causada pelo desastre do rompimento da barragem de Mariana. O espectador-testemunha se comove impotente com a violência da irresponsabilidade social da mineração.
Paulo Herkenhoff, catálogo da exposição no MARGS, 2022
59 obras
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Berna RealeA Frio #1, 2017Pigmento mineral sobre papel fotográfico · 30,9 X 55 X 3 cmSem imagemBerna RealeGinástica da Pele #2, 2019Pigmento mineral sobre papel fotográfico · 30 X 45 cm
Berna RealeGinástica da Pele #1, 2019Pigmento mineral sobre papel fotográfico · 30 X 45 cm
Berna RealeGinástica da Pele #3, 2019Pigmento mineral sobre papel fotográfico · 30 X 45 cm
Berna RealeGinástica da Pele, 2019Vídeo 4’18” · 4’18”
Camila SoatoThe Same Old Shit 5, 2017Óleo sobre tela · 40 X 50 X 3,5 cm
Camila SoatoMeu Corpo Minhas Regras 2, 2017Óleo sobre tela · 40 X 50 X 3,5 cmSem imagemCamila SoatoMeu Corpo Minhas Regras 5, 2017Óleo sobre tela · 40 X 50 X 3,5 cm
Camila SoatoHomerus Brutus 25, 2014Óleo sobre tela · 41 X 51 X 4 cmSem imagemCamila SoatoResistência I, 2017Óleo sobre tela · 50 X 100 X 3,5 cm
Camille KachaniSem Título, 2014Martelo, madeira e folhas artificiais · 25 X 39 X 26 cm
Camille KachaniCiência para Todos, 2015Técnica mista · 35 X 37 X 34 cmSem imagemCamille KachaniSem Título, 2016Técnica mista · 40 X 30 X 30 cmSem imagemCamille KachaniEncyclopaedia Privata, 2016Nanquim e lápis sobre papel · 140 X 100 X 3,5 cmSem imagemCamille KachaniSem Título, 2020Técnica mista · 92 X 53 X 23 cm
Camille KachaniSem Título
Carlos Scliar10 Tenentismo – Coluna Prestes (1924-1926), 2000Serigrafia · 50 X 70 cm
Carlos Scliar6 Rgs - Revolução Farroupilha (1835-1845), 2000Serigrafia · 50 X 70 cmSem imagemCarlos Scliar8 Imigração (Séc. Xix e Xx), 2000Serigrafia · 50 X 70 cm
Cildo MeirelesZero Dollar, 1978-1984Lito offset sobre papel · 6,54 X 15,5 cm
Cildo MeirelesZero Cruzeiro, 1974-1978Lito offset sobre papel · 7,5 X 15,7 cm
Cildo MeirelesInserções em Circuitos Ideológicos: 2 - Projeto Cédula - Cadê Amarildo?, 1970-2013Carimbo sobre cédula de R$ 2,00 · 6,5 X 14 cm
Cildo MeirelesZero Dollar, 1978-1984Lito offset sobre papel · 6,54 X 15,5 cm
Cildo MeirelesInserções em Circuitos Ideológicos: 3 - Projeto Cédula - Marielle, 1970-2017Carimbo sobre cédula de R$ 2,00 · 6,5 X 12 cm
Cildo MeirelesZero Real, 2014Impressão off set sobre papel · 6,3 X 14 cmSem imagemCildo MeirelesZero Real (Autografada), 2014Impressão off set sobre papel · 6,3 X 14 cm
Gláuco RodriguesMeu Brasil Brasileiro - "São Sebastião", 1986Acrílica sobre papel · 250 X 100 X 4 cm
Gláuco RodriguesA Revolução de 30, 1979Litogravura · 31 X 42 X 3 cm
Gláuco RodriguesPrimeiro Reinado (1822-1831), 1979Litogravura · 31 X 42 X 3 cm
Gláuco RodriguesSegundo Reinado (1840-1889), 1979Litogravura · 31 X 42 X 3 cm
Gláuco RodriguesA República Velha, 1979Litogravura · 31 X 42 X 3 cm
Gláuco RodriguesPeríodo Joanino (1808-1821), 1979Litogravura · 31 X 42 X 3 cm
Gláuco RodriguesSão Sebastião do Rio de Janeiro, 1979Litogravura · 31 X 42 X 3 cm
Gláuco RodriguesVista da Lagoa do Boqueirão e Arcos da Carioca (1750), 1979Litogravura · 31 X 42 X 3 cm
Gláuco RodriguesO Estado da Guanabara (1960-1975), 1979Litogravura · 31 X 42 X 3 cm
Gláuco RodriguesFundação do Rio de Janeiro (1565), 1979Litogravura · 31 X 42 X 3 cm
Gláuco RodriguesNo Tempo dos Vice-Reis (1763-1808), 1979Litogravura · 31 X 42 X 3 cmSem imagemIvan GriloEstudo para Estrelas Cadentes (Tempos Difíceis), 2015Intervenção em bandeira, fundição em bronze, prateleira em ferro e recorte em acrílico · 130 X 120 X 15 cmSem imagemIvan GriloAmanhã Vai Ser Maior, 2016Fundição em bronze · 20 X 30 X 1 cmSem imagemIvan GriloEstudo para Bandeira, 2015Gravação em acrílico e prateleira de ferro · 40 X 50 X 10 cmSem imagemIvan GriloEla Levava Plantas na Mão, 2017Impressão sobre papel algodão e fundição em bronze · 76 X 220 X 4 cm
Leonardo FinottiMonumento à Coluna Prestes (1995) (Série Oscar Niemeyer #218), 2018Pigmento mineral sobre papel de algodão Hahnemuhle Photo Rag 308g, moldura de madeira · 40 X 30 cm
Luiz ZerbiniRio Doce, 2019Faiança · 41 X 33 X 6,5 cm
Nelson LeirnerFigurativo Abstrato, 2004Adesivo madeira · 100 X 130 X 4 cm
Nelson LeirnerMapa (da Série "Assim É... Se Lhe Parece" (4))., 2003Adesivo sobre papel · 100 X 100 cm
Nelson LeirnerMissa Móvel, 2010Mista sobre skate · 38 x 160 x 22 cm
Nelson LeirnerSothebys, DólarMista · 29 X 23 X 11 cm
Nelson LeirnerSothebys, EgípcioMista · 29 X 23 X 11 cm
Paul SetúbalA Grande Peleja, 2019Bronze, couro, fibra e pena · 43 X 30 X 22 cm
Rafael PagatiniRetrato Oficial, 2017Impressão UV sobre pregos de aço inox · 45 X 175 X 7 cm
Rafael PagatiniManipulações, 2016Xilogravura sobre papel · 200 X 250 X 6 cm
Rafael PagatiniPassagem 3, 2012Tinta acrílica sobre tela de linho perfurada · 70 X 100 X 3 cmSem imagemRafael PagatiniPassagem 2, 2012Tinta acrílica sobre tela de linho perfurada · 70 X 100 X 3 cm
Rafael PagatiniGrito Surdo, 2016-2020Cimento, areia e resina · 20 X 30 X 22 cm (cada peça)
Tonico Lemos AuadSermão Aos Peixes, 2000Cerâmica Faiança · 40 X 50 X 33 cm
Zoravia BettiolCadeira da Justiça, 2004Madeira, couro, metal e tecido · 105 X 68 X 62 cm
Zoravia BettiolPalas Atenas (Série Deuses Olímpicos), 2019Xilogravura sobre papel · 79 X 50 cmHistórias
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