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Coleção Sartori

Xadalu Tupã Jekupé: seres invisíveis

Xadalu · 2 min de leitura · 6 set 2026

Trineto de guarani (Adalva, triavó materna), Xadalu não se reivindicou como guarani, alegando não falar a língua, fator básico da identidade cultural. Xadalu se tem por “mestiço”, pois sua mãe Maria Catarina Martins da Luz é negra. Diz ele: “minha avó Dalva [Dalva Oliveira da Luz] é um fragmento indígena.” O pajé Karai Timóteo da aldeia Yjere cobrou-lhe aprender o guarani; já falando a língua, o pajé Karai Tataendy Ocã, da aldeia Aldeia Guyra’i Tapu, em Paraty, deu-lhe um nome guarani – Xadalu Tupã Jekupé ou Xadalu, o enviado de Tupã. Alguns comerciantes de Porto Alegre rechaçam a presença dos guaranis nos espaços públicos de Porto Alegre, porque “os índios estragam o ambiente”. Em 2005, Xadalu lançou o projeto Área indígena, colando cartazes com tais dizeres em vários lugares da capital gaúcha. Os guaranis se regozijaram entendendo que era seu espaço de trabalho; os comerciantes sentiram-se ameaçados. “No dia em que não houver lugar para o índio no mundo, não haverá para ninguém,” diz Ailton Krenak.

Seres invisíveis são retratos de guaranis que portam uma escultura do animal com que são identificados. Porque os trabalhadores indígenas passam despercebidos nas ruas de Porto Alegre, esses retratos (negatoscópio em chapa de raio X) denunciam seu apagamento social. Xadalu não extrai a mais valia simbólica dos representados em sua obra. Ele incorpora a colaboração autoral ou provê algum retorno material. Xadalu substituiu a alienação por assumir o outro como sujeito moral e econômico, individual ou coletivo. Diagramas de alteridade, que no caso de Xadalu incluem cursos profissionalizantes nas aldeias Tekoa Koenju, Tekoa Pindó Mirim e Tamanduá, construção de banheiros de água quente na aldeia Pindo Poty; reflorestamento em Pindo Poty, com a madeira Kurupy para o artesanato e distribuição de cestas básicas. Xadalu agencia sua potência na escala individual – não se move por impotência; reconhece a pequena medida de suas possibilidades, sem submergir à onipotência. 55

Paulo Herkenhoff, catálogo da exposição no MARGS, 2022

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