O estado de jardim de Carlos Asp

A produção histórica de Carlos Asp, um artista cult no Rio Grande do Sul, levou Ismael Monticelli a criar o Colírio Carlos Asp® (201??), uma “solução oftálmica indicada para presentificar o ausente”, composta por travesseiro, cobertor florido e regador com água. Depreende-se da nosologia desenvolvida por Monticelli no colírio sobre Asp que a arte da leveza deste tem aquilo que Clarice Lispector experimentou jubilosamente em raro momento existencial: “meu estado é o de jardim com água correndo”. 1 Outra importante informação técnica fornecida na bula é que testes realizados em laboratório comprovaram que o Colírio Carlos Asp®, em contato com o organismo do usuário, pode provocar alterações de percepção, produzindo as mais diversificadas reações. A farmacodinâmica do Colírio Carlos Asp® tem como principal característica estar em constante fase de testes com a advertência de que “Esse colírio deve ser utilizado por indivíduos que possam entrar em estado de contemplação, tendo em conta que é preciso um temperamento conforme, um estado de ânimo conforme e um concurso de circunstâncias externas conforme.” A interação medicamentosa do uso do Colírio Carlos Asp®, concomitantemente a outros (como o Colírio André Lepecki®, Colírio Irmãos Guimarães®, Colírio Milton Santos® e outros desenvolvidos por Monticelli) é aconselhável, podendo advir da mistura de outras percepções ainda não experimentadas em laboratório. Alertamos que, ao entrar em contato com o usuário, os produtos reagem conforme o organismo que os utiliza. 1 LISPECTOR, Clarice. Água viva (1973). Rio de Janeiro, Rocco, 1983, p. 16.
Paulo Herkenhoff, catálogo da exposição no MARGS, 2022


