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Coleção Sartori

Leandro Machado e a emancipação real

Leandro Machado · 2 min de leitura · 6 set 2026

Leandro Machado agencia a arte pela emancipação real dos descentes de escravizados do Brasil. “Sou um negro artista, me dou o direito de fazer, falar, pensar sobre tudo o que bem desejar e sentir necessidade.” 1 Lê-se na obra Colagem: “Você é sua própria ferramenta”. Sua agenda é historicizar seu inconsciente político, conforme Fredric Jameson 2 ao expandir seu rol de ataques ao neo-escravismo pós-colonial. É decolonizar até superar traumas. Denunciar o racismo estrutural. Expor a verdade sócio-antropológica do signo material de sua arte: henê ou pixaim. Não temer agir com ironia ácida. Interpelar racistas como a combativa Adrian Piper ou as Lehrstücke de Brecht, com choque político que produza consciência crítica. Seguir Lilian Turhan: somos educados como racistas, fiquemos atentos. Escancarar o cinismo da “democracia racial brasileira”. Contrapor o neoquilombismo de Abdias do Nascimento ao racismo institucionalizado. Denunciar a pedagogia alienante no Brasil anti-Paulo Freire sobre livros didáticos: Educação que aprisiona e Educação que escraviza. Desnudar o mal estar da anti-civilização racista. Exigir rupturas da imobilidade social em prol da igualdade entre todos. Tornar visível a condição natural e política do negro. Resistir sempre. Não temer embates. O cabelo crespo, defende Leandro Machado, é “identidade, força, cultura, beleza, escultura, aceitação, carinho, presença, poesia, matriz, legado.” Sua escultura Bola (2018) “é uma pérola, uma conta que enrolo entre a palma das mãos.” Bola é uma esfera com força biopolítica, que alude ao globo da diáspora feito com seu cabelo. O projeto Lojas Africanas aborda força de consumo dos afro-descendente no Brasil. Numa tabuleta vernacular pintada a mão se lê Lojas Africanas, índice da marginalidade sócio-cultural da população afro-descendente. As Lojas Africanas, ao

tomar os padrões de identidade das populares Lojas Americanas, exibe as relações do capitalismo entre economias centrais e periféricas e estrutura de classes em seu viés das origens étnicas. Num desenho Lojas Africanas, Leandro Machado insere seu grito de alerta: “De quem é o corpo que pode ser torturado?”

1 Todas as citações de Leandro Machado são extraídas de seus emails a Paulo Herkenhoff em abril de 2018. 2 JAMESON, Fredric. The political unconscious: narrative as a socially symbolic act. Ithaca, Cornell University Press, 1981.

Paulo Herkenhoff, catálogo da exposição no MARGS, 2022

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