Ginástica da pele, de Berna Reale

Ginástica da pele, de Berna Reale A pele humana tem elasticidade propiciada pela proteína do colágeno. Sabe-se que a pele estica e se contrai, se resseca sob condições ambientais, a ação de fatores externos ou dadas condições do organismo. Esta é sua “ginástica”. A obra Ginástica da Pele (2019) de Berna Reale se inscreve na história do Brasil, distingue a representação na arte das posições reais do sujeito, aborda sistemas de dominação desde a escravização dos africanos e indígenas e sua persistência no atual racismo endêmico, explora seu inconsciente político, elabora sua história da cor e da tez, sob referências a filosófos de Georg Hegel a Walter Benjamin, Michel Foucault e Giorgio Agamben. “Fazer uma ginástica” significa empreender todo esforço diante de grande dificuldade. A trama de Ginástica da Pele remete ao Brasil colonial dos africanos sequestrados para os trabalhos forçados até seus atuais descendentes, todos precisam “fazer uma ginástica” para sobreviver física e moralmente diante da discriminação, destruição da alta estima, aviltamento do corpo e genocídio pela polícia. Ginástica a Pele é, pois, da lógica do Parangolé P 16 capa 12 de Hélio Oiticica que proclama: “Da adversidade, vivemos”, ou sobrevivência do lumpensinato no Brasil, d’après Frantz Fanon de Os condenados da Terra. Reale revalida Fanon e o Parangolé ao “recrutar” cem rapazes em faixas etárias e identidade étnica na proporção ocorrente nas cadeias do Brasil1. Os jovens foram dispostos em gradação cromática da tez dos brancos aos pardos e negros na lógica do racismo no país. Agenciado este choque ético-visual, a Belém de Reale é uma cidade rebelde.2 O exercício do poder e a obediência em Ginástica da Pele encenam a “dialética do senhor e do escravo” da Fenomenologia do Espírito de Hegel. Na obra em tela, a artista ocupa o lugar do senhor, no papel de representação do Estado policial. Para Hegel, o senhor é um ser-para-si (being-for-self) e exerce a potestas sobre o escravo, que existe submisso e indefeso para o outro.3 22
Com os rapazes sentados em ordem, Berna Reale segue o “princípio do quadriculamento”, “cada indivíduo no seu lugar; e em cada lugar, um indivíduo (…) para conhecer, dominar e utilizar. A disciplina organiza um espaço analítico,” conforme a criminologia Foucault diagnostica as tecnologias de dominação do corpo.4 Ginástica da pele me remete à Caixa de baratas (1967) que Lygia Pape construiu durante a ditadura de 1964 com a técnica de quadriculamento dos insetos. Tratava-se de uma paródia, acidamente crítica, daqueles que aceitavam passivamente a restrições de direitos democráticos no regime militar. Ginástica da pele, portanto, se crava sobre o corpo como evidência da racionalidade da dominação biopolítica foucaultiana. As imagens da barbárie policial contra cidadãos no Brasil, como naquela cena do filme Carandirú (2003, direção de Hector Babenco e fotografia de Walter Carvalho) em que centenas de presidiários que escaparam do massacre de 111 homens em São Paulo, estão sentados nus com as mãos entrelaçadas em frente às pernas. Babenco, Carvalho e Reale contam “a história do ponto de vista dos vencidos”. 5 Todo artista que almeja a emancipação, igualdade e justiça tende à observância desta tese, agora retemperada por Berna Reale na denúncia da vida nua sob o mais absoluto estado de exceção.6
1 Berna Reale em e-mail ao autor em 10 de março de 2021. 2 Alusão a HARVEY, David. Cidades Rebeldes: do direito à cidade à revolução urbana. São Paulo, Martins Fontes, 2014, passim. 3 HEGEL, G. W. F.. The phenomenology of mind. Trad. J. B. Baillie. Londres, George Allen & Unwin Ltd., 1971, p. 237 do capítulo ‘Lordship and bondage. 4 FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Transl. Lígia M. Pondé Vassallo. Petrópolis, Editora Vozes Ltda., 1977, p. 26 5 BENJAMIN, Walter. “On the concept of history”. In: Walter Benjamin: Selected writings. Michel W. Jennings (ed.). Trad. Harry Zohn. Cambridge, The Belknap Press of Harvard University Press, 2003, vol.4, p. 389. 6 AGAMBEN, Giorgio. State of exception. Trad. Kevin Attell. Chicago, The University of Chicago Press, 2005.
Paulo Herkenhoff, catálogo da exposição no MARGS, 2022


